08 dezembro 2009

Por um cristianismo brasileiro ainda por ser feito


"Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” – João 10: 10

Por onde anda a vida que Deus nos deu? Quais são os seus contornos, suas extensões, suas possibilidades? Quais são seus limites, suas propriedades, seus exageros, suas definições, suas impropriedades? Por onde a vida passa, ou melhor, por onde nós a deixamos passar?

Faço essas perguntas porque acredito que a dimensão que damos à vida é diretamente proporcional à visão que temos de Deus, à tecitura de nossas posições teológicas e à nervura da nossa fé.


As formas que damos à vida são as formas que nós a entendemos, controlamos e que na mesma proporção contornam nossa fé. Assim, Deus estará circunscrito por entre a extensão que damos à nossa vida e a vida que nos rodeia. Em outras palavras, Deus agirá ou não na vida humana na medida em que permitirmos, em que situarmos fronteiras e deixarmos a vida acontecer. É a vida que se molda dentro e ao redor de nós que municia a fé e àquilo que pertence a fé.

Vida, Fé e Cristianismo
Texto integral pode ser lido no site


Rev. Cláudio Carvalhaes
A fé em Jesus Cristo é um jeito de lidar com essa relação difícil entre a vida que temos e a fé que sempre buscamos ter. Teologias, jeitos vastos e formas imperfeitas de entender a fé que sejam capazes de nos servir de rumo, prumo e luz no meio de tanta confusão. Pensando nesses nossos jeitos de criar esses rumos, o que chamamos de teologias, confesso que fico assustado com o rumo do Cristianismo no Brasil e no mundo. Cristãos se esquecem que os processos de definir a fé cristã são, foram, e sempre serão, processos humanos que buscam achar graça num gracejo do Espírito Santo em viver a fé com singeleza e honradez.


Tudo isso cria uma redução sistemática e assustadora da fé cristã, um empobrecimento teológico talvez jamais visto, e uma crescente insanidade que cria doutrinas, eventos, novidades e experiências que em nada ou muito pouco traduzem o Evangelho de Jesus Cristo. Novamente, o Cristianismo virou um punhado de afirmações alucinógenas que tornaram Deus num mero serviçal da fé pessoal.


O Protestantismo brasileiro porém, continua sua caminhada célere em sua vocação sectária na cultura brasileira desde os tempos imperiais. Nascido sob a sombra do Catolicismo que o relegou à margem da cultura, o protestantismo brasileiro, agora em suas novas versões neo-pentecostais, tem se destacado ainda mais em seu obscurantismo sectarista. Tudo agora precisa ser evangélico para ser “de Deus”.

Nessa onda de “fidelidade a Deus”, empresários espertos vão ganhando a vida em nome de Deus. Carros tem que ser propriedade de Jesus, água mineral tem que ser abençoada, as emissoras de rádios têm que ser evangélicas, as músicas só podem ser evangélicas, as roupas tem que ser fabricadas por servos de Deus, as lojas de chocolate tem que dizer “o Senhor é o dono do meu negócio”, e agora até arroz tem que ser evangélico, sem falar do champagne - sem álcool. Tudo precisa da bênção e da santificação dos evangélicos para ser consumido. Do contrário é tudo do Diabo.

Isso não é só aqui, perto da minha casa em Nova Iorque tem um dentista que tem na sua placa de entrada: “Dentista Glória a Deus”, talvez seja melhor dizer glória a Deus do que xingar o dentista.

Nesse alvoroço econômico-cultural evangélico, as igrejas tentam de tudo para aliviar a dor das pessoas enquanto enchem seus cofres com o dinheiro do nosso povo sofrido.

Quanto vale uma benção? Quanto vale uma oração? Será que nossos pastores, bispos e apóstolos continuariam a pregar o Evangelho se eles tivessem que morar em casas e apartamentos mais simples ou tivessem que pegar ônibus, bater cartão, usar roupas simples, ou abandonar os carros e o salário astronômico que eles têm?

Por que será que o evangelho da prosperidade que funciona tão bem para eles não acontece com a maioria de seus membros que lutam diariamente para fazer o salário dar conta no final do mês? O que seria dos ex-quase astros esquecidos da Globo e do SBT que se converteram e hojem ganham a vida dando testemunho, se as igrejas não dessem a eles a “oferta” para falar de sua salvação?

Quando penso no Evangelho de Jesus Cristo não penso nesse Cristianismo que ficou aprisionado às necessidades pessoais, numa relação puramente econômica com Deus, uma espécie de pegue-pague das igrejas-supermercado da fé. Raul Seixas e Marcelo Nova já falavam dessas igrejas na música “Pastor João e a Igreja Invisível”.

É preciso dizer que fazer Deus um objetivo para se conseguir alguma coisa na vida não é invenção nova nem estranha ao Cristianismo. Faz parte da relação vida e fé desde tempos inaugurais da fé cristã. O problema contudo é que essa relação com Deus vem desprovida de desafios contundentes que pedem mudanças radicais na forma e no jeito de se viver a vida e a fé. Hoje a fé tornou-se algo extremamente confortável. A única coisa que se coloca como desafio para a fé é a necessidade de dar dinheiro, de confiar em Deus e ser “liberal” com os ganhos financeiros. Não compactuar com os ímpios ou pagãos também é um desafio. Fora disso nada desafia, nada espanta, nada nos faz converter o coração e os nossos caminhos. Não há referencias ao pobre, à luta contra a injustiça, contra os abusos, contra os preconceitos que estão impregnados em nossa sociedade. 


Tentando compreender a vida abundante que Cristo nos prometeu, remando contra a maré e assumindo riscos de pregar o que não se fala mais nos discursos religiosos atuais, quero mencionar brevemente, com um claro enfoque para uma justa divisão de tempo para cada tema, algumas coisas que possam ampliar a vida, a fé e suas possibilidades para um jeito/rumo/teologia que avance em direção à vida abundante que Jesus nos prometeu.

  •  No preconceito e dificuldade que temos com as diversas expressões da sexualidade humana e na exclusão daqueles que vivem a vida em outros contornos;
  • Nas antigas e novas formas colonizadoras, tanto Européia-Portuguesa quanto da Norte-Americana, que nos ditou e dita as formas de se viver, entre tantas coisas, a nossa fé, uma fé ainda estrangeira vivida em terra brasileira;
  •  na relação da ecologia com a fé cristã;
  • questões ético-bio-químicas e ainda outros temas a serem levantados
É preciso que o anúncio da nossa fé inclua os que nós rejeitamos, abandonamos, esquecemos e enganamos.  Não permitamos mais que a serpente decida por nós. Assim, somente assim, nossa fé será mais forte porque feita a partir de referências que sempre excluímos; nossa fé será mais vibrante, porque trará novos contornos, novas fronteiras e novos confrontos a fé que vivemos; e mais solidária porque feita em comunhão com quem nunca ouvimos, aprendemos ou atentamos; e então anunciaremos ao mundo que a vida que Jesus nos prometeu é real e verdadeiramente abundante.
Que Deus nos ajude!
Precisaríamos pensar: 

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